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O vinho dos quatro ladrões

Dr. Eduardo Lima Garcia

Diz uma lenda antiga na França que, durante a peste bubônica (ou peste negra), no século XIV, quatro ladrões na cidade de Marselha aproveitaram a oportunidade do grande número de mortes e o medo de contato pelos familiares para roubar os itens de valor dos cadáveres acometidos pela moléstia.  Quando presos, o juiz local os condenou à morte na fogueira, mas, intrigado pelo fato de eles não terem manifestado a doença, fez a proposta de morte por enforcamento caso eles anunciassem seu segredo. Concordando com a nova condenação, os ladrões revelaram que se banhavam em vinagre (do francês “vin” que significa vinho e “aigre” azedo) com ervas antes de vasculharem os cadáveres. A acidez com teor alcoólico desses “vinhos azedos” provavelmente já possuía efeito antibactericida.

A peste bubônica adentrou a Europa inicialmente pela Ásia Central através da rota da seda e espalhou por toda Europa por meio de navios genoveses, que transportavam ratos carregados de pulgas. Elas eram portadoras da bactéria Yersinia pestis e transmitiam para os humanos mediante as picadas. Quando as manifestações mais graves apareciam, os patógenos também eram transmitidos por via respiratória ou secreções. Os principais sintomas eram febre alta, mal-estar e até alucinações. Os sinais mais característicos eram linfonodomegalias axilares e inguinais enormes (chamados bubões) e manchas escuras na pele devido a isquemia tecidual e necrose. Estima-se que mais de 70 milhões de pessoas morrem nos primeiros cinco anos de disseminação.

A ideia de contágio interpessoal foi logo compreendida. Basta notar que, já no final do ano de 1346, forças mongóis invasoras foram dizimadas pela peste durante o cerco de Caffa (atual Teodósia, na Criméia) e catapultaram alguns de seus mortos para dentro da cidade ocupada pelos genoveses. Somente a partir do início do século XVII que médicos começaram a usar proteção contra a transmissão da doença. O traje bastante macabro consistia em uma máscara de pássaro com óculos e um longo vestido de couro ou de lona encerada que ia do pescoço ao tornozelo.

Uma infinidade de tratamentos ineficazes também foi difundida durante os anos seguintes. Pessoas amarravam frangos vivos e alhos com ataduras nos bubões infectados. Uma poção com ópio, carne de serpente e dúzias de ervas chamada Teriaki, também era vendida com custo bem alto. O médico francês Nostradamus indicava também uma suposta pílula rosa composta por óleo essencial de hissopo, que trazia bons resultados, mais provavelmente pelo fato de que o médico também insistia nos hábitos de higiene pessoal.

Somente depois de muito tempo algumas outras medidas mais efetivas foram implantadas, tais como a quarentena, uma obrigatoriedade a qual barcos deveriam permanecer isolados por 40 dias antes que seus passageiros e tripulantes desembarcassem em seus portos. Condutas de distanciamento influenciadas pelos médicos da Grécia antiga Hipócrates e Galeno, que afirmavam que em situações como essa a melhor estratégia seria “cito, longe, tarde” (saia depressa, vá para longe e volte devagar). 

Uma pestilência pouco conhecida, altamente contagiosa, que invadiu a Europa vinda da China, associado a medidas de isolamento, máscaras, álcool (vinagre) e tratamentos ineficazes difundidos. Parece familiar? Pena que Edward Jenner só nasceu no século XVIII, mas essa história fica para uma próxima vez.


Dr. Eduardo Lima Garcia é o 1º tesoureiro da Diretoria da APM – Regional de São José do Rio Preto.