Salvar o SUS: um dos maiores desafios do Brasil
Na primeira reportagem sobre o SUS, publicada na edição passada da Revista APM Rio Preto, apresenta várias razões para se defender o maior sistema de saúde pública do mundo. É fato, no entanto, que o SUS atravessa há muito grave crise, com inúmeros problemas na prática, principalmente em relação a desigualdades na oferta de serviços, escassez de recursos e mão de obra e falhas na comunicação entre os entes federativos.
Em 2021, o Brasil investiu apenas 10,5% do produto interno bruto (PIB) em saúde – valor bem menor que a média mundial de 15,3%, considerando países membros da OCDE.
Segundo o relatório “Aspectos Fiscais da Saúde no Brasil”, publicado pelo Banco Mundial, a maior parte dos gastos é bancada por organizações privadas, enquanto somente 45% do total de investimentos vem do setor público. Este padrão contraria a lógica do SUS e os objetivos que nortearam o sistema, quando de sua criação.
A média de financiamento público para a saúde entre os integrantes da Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico é de 73,4%.
A média de consultas de saúde por habitante no Brasil é de apenas 2,8, conforme o relatório sistêmico de fiscalização Saúde (Fisc Saúde 2016) do Tribunal de Contas da União. Esta realidade põe o Brasil na 27ª posição entre 30 nações que tiveram os serviços de saúde avaliados.
Outra consequência nefasta da má gestão do SUS durante estas três décadas é a escassa disponibilidade de medicamentos essenciais gratuitos à população. Segundo a OCDE, as famílias brasileiras financiam 90% dos gastos com produtos farmacêuticos.
O sistema também fracassou em sua missão de promover a saúde primária. Exemplo é o aumento de 12,5% da taxa de sobrepeso entre os brasileiros, a quarta mais alta entre 2006 e 2016. Somente Costa Rica, Japão e Coreia registraram números maiores.
PROBLEMAS DO SUS
No artigo “Como está a saúde pública no Brasil e o que fazer para melhorar”, Dr. José Aldair Morsch relaciona sete problemas da saúde pública no Brasil. Morsch é médico formado pela FAMED - FURG – Fundação Universidade do Rio Grande – RS, em Medicina interna e Cardiologista pela PUCRS, pela qual também é pós-graduado em Ecocardiografia e Cardiologia Pediátrica. Leia abaixo, trecho do artigo no qual ele cita sete problemas da saúde pública no Brasil.
1. Gestão ineficiente
O modelo descentralizado do SUS tem seus prós e contras. A gestão participativa está entre os pontos positivos, enquanto o desafio para monitorar e distribuir as receitas fica entre os negativos. Nesse cenário, ficam evidentes fatores como a administração deficiente, que contribui para a grande desigualdade na oferta dos serviços. Para corrigir essa falha, é essencial o cuidado na seleção dos gestores de instituições públicas de saúde, além da maior integração das esferas federal, municipal e estadual.
2. Verba escassa
Mencionei acima que o país destina somente 10,5% do PIB, sendo que apenas 4% ficam para a saúde pública, responsável pela assistência de mais de 70% dos brasileiros. Como reflexo, a média per capita gasta com a saúde dos brasileiros é 30% inferior à global. Esse fator limita o investimento em áreas estratégicas como a assistência primária, que seria capaz de resolver cerca de 80% das demandas de saúde.
3. Longas filas de espera
Uma pesquisa divulgada pelo Conselho Nacional de Medicina e Instituto Datafolha em 2018 revelou que o longo tempo de espera é uma das maiores razões de insatisfação por parte de usuários do SUS. Tanto que 30% dos respondentes afirmaram ter aguardado mais de um ano para receber atendimento. Problemas com o fluxo, triagem e informações disponibilizadas para a população estão por trás das filas imensas, que contribuem para o agravo de doenças e sintomas.
4. Superlotação de hospitais
Junto à má gestão de recursos, a escassez de programas de orientação aos pacientes também colabora para a superlotação de hospitais. Essa situação caótica acontece quando a necessidade identificada de serviços de emergência supera os recursos disponíveis na unidade de saúde. Muitas vezes, pessoas que desejam atendimento rápido acabam se dirigindo diretamente ao pronto socorro, quando o ideal seria que fossem até um posto de saúde. Assim, os serviços de emergência ficam sobrecarregados com casos leves, atrapalhando a triagem e seleção de casos prioritários. Além de atrasar a avaliação de todos os doentes.
5. Falta de leitos
O contexto que descrevi acima contribui para a falta de leitos nos hospitais brasileiros, mas não é o único motivo. A demanda por equipamentos necessários para setores como as Unidades de Terapia Intensiva (UTI) e problemas administrativos também respondem por esse drama. Essas questões fazem com o que o país perca leitos necessários para uma assistência de qualidade, como alertou o levantamento da Confederação Nacional dos Municípios (CNM). O estudo revelou que o Brasil havia perdido 40 mil leitos entre 2008 e 2018, sendo 23 mil deles em entidades públicas.
6. Desigualdade na distribuição de médicos
Dados da Demografia Médica 2020, realizada em parceria entre Universidade de São Paulo (USP) e CFM, atestam grandes desigualdades na distribuição de médicos pelo Brasil. Enquanto a razão média nacional é de 2,27 médicos por mil habitantes, a região Norte apresenta taxa de 1,30, e a Sudeste, taxa de 3,15. As disparidades aparecem nas comparações entre regiões, estados e até entre capitais e municípios do interior dentro de uma mesma unidade federativa. Para se ter uma ideia, a cidade que registra a maior quantidade de médicos por habitante no país, Vitória/ES, conta com a razão de 13,71 profissionais por mil habitantes. Já no interior do próprio estado do Espírito Santo, a razão média cai para 1,67.
7. Despreparo dos profissionais
Além da falta de mão de obra, a saúde pública ainda sofre com a falta de profissionais capacitados para a assistência. O crescimento da demanda pelos cuidados com doenças crônicas, salários baixos e cursos de qualidade questionável estão no cerne desse problema.
POSSÍVEIS SOLUÇÕES
Na sequência Dr. José Aldair Morsch contribui sugerindo principais soluções para melhorar a saúde pública no Brasil, que ele considera mais de aprimoramento para a gestão em saúde.
Treinamento dos profissionais
Equipes médicas, recepcionistas, secretárias, profissionais da limpeza e outras áreas necessitam de capacitação e atualização constantes. Esse é um requisito para a oferta de serviços de qualidade em qualquer unidade de saúde. Portanto, vale reforçar o treinamento periódico da sua equipe, que pode ser feito de forma convencional, online ou híbrida.
Melhora na comunicação
Ruídos e falta de comunicação são a raiz de diversas dificuldades no gerenciamento, atendimento e até no comportamento do paciente. Portanto, foque na transparência, clareza e concisão de informações, a fim de que sejam compreendidas por todos.
Não se esqueça de veicular essas informações nos canais corretos. Por exemplo, na intranet e via memorando para os funcionários, e em cartazes espalhados pela recepção para os pacientes.
Planos de carreira atraentes em cidades do interior
Se o propósito é atrair mão de obra qualificada para os municípios do interior e regiões Norte e Nordeste, é necessário oferecer bons planos de carreira. E não estou falando só de salário, mas sim de benefícios adicionais por produtividade, possibilidades de crescimento, flexibilidade, etc. Caso contrário, fica complicado estruturar uma rede pública de qualidade nesses locais.
Redefinição dos fluxos de atendimento
Esse é um ponto chave para diminuir as filas de espera no SUS. É preciso otimizar a triagem por meio de ferramentas como distribuição automatizada de senhas e recuperação de dados de pessoas cadastradas. Dessa forma, fica mais simples definir o que é prioritário e quem pode aguardar por mais tempo ou ser redirecionado a uma unidade básica.
Maior investimento em medicina preventiva
Medidas de conscientização e atenção primária têm o potencial de qualificar a assistência em saúde pública. Portanto, faz sentido concentrar os esforços nessas ações e programas, diminuindo a demanda por consultas, exames e tratamentos dentro do SUS.
Auxílio da tecnologia
Inserir softwares médicos, agenda eletrônica e marcação de procedimentos online, por exemplo, ajuda a melhorar o fluxo da assistência. Além de conferir agilidade e diminuir gargalos na assistência. Uma das inovações mais úteis para as unidades de saúde é a telemedicina, que conecta profissionais de saúde e pacientes em diferentes locais com segurança.
Uso da telemedicina na saúde pública no Brasil
Devido ao potencial de alcançar locais remotos, a telemedicina tem protagonizado uma série de experiências de promoção da saúde pública em todo o país.

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